As eleições presidenciais chilenas elegeram neste domingo (14) José Antonio Kast, ex-deputado e atual presidente do Partido Republicano do Chile, agremiação que ele mesmo fundou em 2019. Com isso, o Chile deixará de ser governado pela centro-esquerda de Gabriel Boric, que venceu Kast no segundo turno das eleições de 2021. A vitória marca um momento singular na política chilena recente, ao consolidar no poder um líder frequentemente classificado como de extrema-direita, com discurso duro em temas como segurança, imigração e costumes, e com uma relação explícita e controversa com o legado do regime militar.
Ao longo da campanha, Kast não apenas evitou se distanciar do período autoritário, como também reafirmou posições que o aproximam da ditadura de Augusto Pinochet. Ele próprio já declarou publicamente que votou a favor de Pinochet no plebiscito de 1988, que decidiu sobre a permanência do general no poder, posicionamento que voltou ao centro do debate após sua eleição. Pinochet, que assumiu o poder em 1973, ficaria na presidência do país sul-americano até 1990. Anos mais tarde, Pinochet recebeu várias condenações do Tribunal Internacional de Haia por crimes contra a humanidade, entre eles, a tortura de mais de 30 mil cidadãos chilenos.
Kast nunca negou publicamente os crimes atribuídos a Pinochet, mas costuma valorizar seu "legado". “Eu não sou pinochetista, mas valorizo tudo o que ele fez”, já afirmou em 2020. Em outra de suas falas mais citadas por críticos e analistas, Kast afirmou que “se Pinochet estivesse vivo, ele votaria em mim”, frase que foi interpretada como sinal de admiração política pelo ditador. A declaração reforçou a percepção de que, diferentemente de outros líderes da direita chilena no período democrático, o novo presidente não apenas relativiza, mas exalta aspectos do regime militar.
Desde o fim da ditadura, em 1990, a direita já havia governado o Chile em outras ocasiões, notadamente nos dois mandatos de Sebastián Piñera, morto em um acidente de helicóptero em 2024. No entanto, Piñera sempre buscou se apresentar como um representante de um campo liberal-conservador institucional, comprometido com a democracia representativa e com o distanciamento formal do autoritarismo do passado.
Essa diferença ficou explícita em declarações anteriores do próprio Piñera sobre Kast. Ainda durante seu mandato, o ex-presidente afirmou que o então deputado “não é o caminho para o Chile”, ao criticar o que considerava posições extremadas e polarizadoras dentro da direita. A fala passou a ser resgatada após o resultado eleitoral, como sinal das tensões internas no campo conservador chileno.
Com a vitória de Kast, o Chile inicia um novo ciclo político, marcado por incertezas quanto à relação do governo com as instituições democráticas, os direitos humanos e o processo constitucional em curso. A forma como o novo presidente conduzirá essas agendas deve definir não apenas seu mandato, mas também os contornos da direita chilena nos próximos anos.
Com informações de CNN Chile, CNN Brasil e Meganoticias.Cl. | Foto: Reprodução/Redes Sociais